Você está vendendo asas?

Quando eu comecei esse blog anos atrás, eu não tinha muita noção do principal objetivo dele. Eu queria contar histórias, eu queria falar de mim, eu queria falar das pessoas ao meu redor. Alguns posts antigos me dão vergonha, mas alguns me deixam bem orgulhosos. Com o tempo, o blog foi tomando forma e tornou-se o que é hoje refletindo o que eu sou fora dele.

Isso fica claro nos posts que acabam tendo um cunho de auto-ajuda, comum na internet hoje em dia. Eu sempre penso que esse tipo de post pode se tornar chato, sendo apenas mais um texto de alguém sobre como a vida pode se tornar melhor se você seguir minhas 12 dicas especiais ilustradas com gifs. Mas pensando um pouco sobre o assunto, eu vejo dois principais motivos pelos quais o blog ficou assim.

O primeiro é que esse é o principal tipo de texto que eu consumo na internet. Textos que te ensinam a ser uma pessoa melhor, um homem melhor, escritor melhor, profissional melhor, amante melhor, um ser humano melhor. E isso fala muito mais da internet do que de mim: realmente tem pessoas a solta por aí na rede mundial de computadores que acham que o principal uso dela é te transformar em um ser humano elevado. Quem diria!

O irônico é você ter que chegar nesses textos justamente pelo Facebook, um dos maiores antros de sarcasmo e ironia do universo, cheio de provas de quão baixo o ser humano pode chegar. É como se você pudesse ganhar a sabedoria elevada de um mestre ancião apenas descendo nas catacumbas de uma cidade suja e fria. O que talvez seja uma boa metáfora sobre o Facebook, no final das contas.

Então, nessa constante busca na internet por algo que te faça ser melhor, eu decidi fazer textos sobre isso, como uma luz no fim no túnel no meio de tantas outras que existem por aí. Eles ajudam? Não sei. Mas a gente tenta.

O outro principal motivo pelo qual eu sinto que os posts acabam ganhando esse cunho de auto-ajuda é o meu campo de trabalho. A publicidade e a propaganda são tarefas pesadas de se trabalhar. Nós sempre pensamos “eu podia estar recolhendo lixo, então não vou reclamar” mas principalmente em tempos de “crise, crise, crise” fazer algo que você sabe que servirá para recolher dinheiro das pessoas causa uma certa agonia na alma.

COMPRE JÁ! ADQUIRA JÁ! 10 VEZES SEM JUROS E SEM ARREPENDIMENTOS! Palavras simples e fortes em cores berrantes não ajudam as pessoas a serem pessoas melhores. É como trabalhar com um recém-nascido, que tem que entender o impulso mais rápido e mais chamativo da melhor maneira possível. E reduzir as pessoas a um entendimento tão básico do que elas tem ao seu redor é subestimar a capacidade de todo mundo.

Quisera eu trocar cada COMPRE! por COMO VOCÊ ESTÁ SE SENTINDO HOJE? Trocar ADQUIRA JÁ O SEU! por VEM CÁ, VAMOS TOMAR UM CAFÉ E CONVERSAR? Trocar 10 VEZES SEM JUROS E CINQUENTA POR CENTO DE DESCONTO por 50 MINUTOS DE CONVERSA SINCERA E SEM INTERRUPÇÕES. Uma publicidade mais sincera, que pegue na mão da pessoa e fale o que realmente importa.

É difícil, claro. E talvez por isso eu escreva textos de auto-ajuda. É como se naquela cidade suja e imunda que você vai para buscar sabedoria eu esteja tirando a tomada de uma luz neón que ilumina uma oferta e ligando em um letreiro modesto e sincero: “aqui nós ouvimos você”.

É possível trabalhar com propaganda e não morrer de agonia, mas isso acaba se tornando uma luta diária para escolher algo sincero pelo qual lutar. É uma busca por criar algo que vá melhorar a vida das pessoas. Algo em que ela vai gastar o dinheirinho suado do mês sem se arrepender. E aí vai muito do cliente que você escolhe e do tanto de sinceridade que você vai colocar no trabalho. Eu sempre me pergunto: o produto que eu estou ajudando a vender vai tornar a pessoa melhor na hora que ela passar o cartão? Ela vai se sentir melhor ou vai se sentir satisfeita? Em qual beco da cidade estou levando ela pela mão, o da luz neón com um letreiro piscante ou aquele que só é iluminado pela sabedoria dela?

A publicidade serve para ajudar o consumidor a pular o abismo entre quem ele é e quem ele deseja se tornar ao adquirir o que você está vendendo. Mas entre vender asas ou dar um empurrãozinho, vá pela terceira opção: mostre onde fica a ponte. E atravesse com ele.


Sam quer saber: como vai você?

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