O dia depois do dia mundial do rock

(Como são as coisas. Escrevi esse texto ontem, no início da manhã, para postar hoje esperando as reações que descrevi abaixo sobre o Dia Mundial do Rock. E adivinha só: elas não aconteceram! Nem um doodle especial no Google! Isso comprova que talvez as pessoas já concordem com o que eu digo abaixo. E que talvez eu deva parar de escrever textos antes das coisas acontecerem. De qualquer jeito, segue o texto abaixo na íntegra. Shake it off.)

***

Terça, dia 14 de julho, um dia depois do Dia Mundial do Rock. A essa altura, você deve ter lido que o rock não é mais o mesmo, que hoje em dia só se escuta coisa ruim, que bom mesmo era nos anos 60, 70, 80, 90, e isso tudo falado por gente que não era nem nascida nos anos 60, 70, 80, 90 e que só conheceu isso graças a internet dos anos 2000. Eu sei. Eu sou um desses.

Em meio a reclamações e listas do Buzzfeed, o que ninguém vai notar enquanto se diverte com o doodle especial do Google sobre o dia é que não existe problema algum em o rock não ser mais como antigamente. Aliás, não existe problema nenhum no rock existir ou não! O rock como as pessoas querem que seja, claro. Se você acha que quatro caras de cabelo bagunçado tocando guitarra e falando de amor devem ser tão famosos quanto antigamente, vá ouvir 5 Seconds of Summer. Eles são iguais aos Beatles.

A maioria das pessoas que acha que o rock deve ser como antigamente deve ver o rock como uma franquia, como algo que deve ser renovado de tempos em tempos para que tudo continue como antes. Como algo que merece uma pintura, uma hashtag nova, uma roupa nova e um sorriso novo e pronto. As pessoas acham que o rock precisa do The Rock.


Dwayne “The Rock” Johnson tem uma história parecida com o Rock. De origem humilde e família grande, The Rock viu os pais sofrerem para levar a família adiante. Assim como o rock, herdeiro do jazz, do blues e do R&B, The Rock fazia parte da terceira geração de lutadores da sua família e, por mais que tenha tentado outros nomes, foi quando aceitou sua herança e escolheu o mesmo nome de luta dos antepassados que encontrou sua fama.

Depois de anos lutando no circuito, The Rock percebeu que teria um mercado mais lucrativo sendo ator. Com seu sorriso carismático e seu físico impenetrável, o ator conquistou seu espaço aos poucos, até encontrar um papel que usasse seus principais dotes com potencial: o de renovador de franquias.

A primeira foi Velozes & Furiosos. Ao entrar na história como antagonista, pronto para capturar os heróis ladrões de carros, todo mundo sabia que não ia demorar para que ele trocasse de lado e fosse comparar seus músculos com os de Vin Diesel. Velozes & Furiosos 7, embalado pela morte de Paul Walker, teve uma das maiores bilheterias da história do cinema, mas seria uma franquia defunta se não tivesse sido ressuscitada por The Rock filmes antes.

Na franquia G.I. Joe The Rock teve a mesma função ao estrelar o segundo filme da série, exceto que ninguém assistiu a franquia G.I. Joe. E isso tudo veio do cara que estreou O Fada do Dente. E o rock com vergonha dos anos 80.

A questão é: o rock é uma forma de pensamento, de atitude, de ação. Ele não precisa de um rostinho novo para representá-lo. O rock é melhor sendo invisível. O rock é como a Força. O rock é como o Wi-Fi. Não vai ser uma banda que vai mudar tudo. E nem devia!

O rock é melhor nas beiradas da sociedade, sempre disponível para quem quiser ouvir, mas não no pódio, recebendo toda atenção. Imagine alguém tão talentoso e odiável quanto Kanye West sendo a cara do rock hoje em dia. Imagine o Sr. Rock and Roll casado com uma Kardashian. Imagine o vocalista da sua banda favorita sendo perpetuamente escrutinado pelo seu jeito de vestir quando tudo o que ele pensa é “eu só queria falar da minha música”.

O rock também não precisa de uma renascença. Vários artistas centenários voltam de tempos em tempos e são massacrados pela opinião popular (e pela sua). O último clipe da Madonna conta com um rap da Nicki Minaj no meio e participações especiais de Katy Perry, Kanye West e Beyoncé, sem contar o Diplo pulando lá no meio da galera. Enquanto isso, a Madonna faz estripulias como uma tia bêbada na festinha de crianças que você filma pra colocar na internet. Pra que? Só para estar ai?

O rock está bem como está: sempre disponível. Por mais que a Miley Cirus regrave Led Zeppelin e Beatles, as versões originais estão lá, disponíveis. Por mais que o Paul McCartney faça parceria com a Rihanna e o Kanye West, os álbuns dos Beatles e dos Wings estão ainda lá, inteiros. O rock nos anos 60, 70, 80, 90 não volta mais porque as pessoas não são mais as mesmas. E porque se ele voltasse hoje, ele ia ser remixado em menos de 24 horas. Melhor não. O rock não precisa voltar aos holofotes. Só precisa que você continue gostando dele sem precisar gritar isso a cada 13 de julho. E o rock não precisa do The Rock. Ele curte Taylor Swift.



Sam just wanna shake, shake, shake, shake, shake, shake... shake it off!

Nenhum comentário: