Sempre tratei Eric Clapton com um "aham Cláudia, senta lá..." e não sei qual o motivo dessa atitude. Conheço basicamente os hits da sua carreira solo, curto muito o Disraeli Gears do Cream e já li e reli várias vezes a história do triângulo amoroso Eric Clapton X Pattie Boyd X George Harrison. E... só. A imagem que tinha de Eric Clapton é que ele era chato. Isso se confirmou depois do livro. Mas é um tipo diferente de chato. Ele é chato tipo... eu. Ele só queria tocar sua música, no fim das contas. Eu também.
Encruzilhada com Eric Clapton e John Mayer. Que tal?
Uma coisa que tenho comigo há tempos é de que o rock é basicamente uma questão de oportunidades. Mas não depois de ficar famoso, de aproveitar as oportunidades que aparecem para ficar mais famoso ainda, assinar o contrato certo e coisas assim. Oportunidades antes da carreira musical. Quanto menos oportunidades você tem, mais chance você tem de ficar famoso, exatamente como diz a velha máxima de Bob Dylan em "Like a Rolling Stone": "when you got nothing', you got nothin' to lose".
Ou seja: você não tem o que perder? Se joga nessa estrada!
Os Beatles, se não fossem os Beatles, acabariam tornando-se marinheiros na cidade portuária de Liverpool. Ozzy Osbourne queria ser um Beatle, mas na dúvida entre tornar-se um trabalhador de Birmingham, construindo casas, trabalhando em açougues, nas empresas de produção de carros, eventualmente enchendo a cara e sendo preso, tornou-se tudo isso. Por mais engraçado que seja, ele deve ter agradecido a Deus pelo Black Sabbath.
Eric Clapton teve a sua própria história triste: para começar, sua mãe não era sua mãe. Eric foi criado acreditando que seus pais eram sua avó e seu tio, e sua verdadeira mãe, sua irmã mais velha. Quando descobriu a verdade, já não sabia em quem deveria confiar. O violão que ganhou aos 13 anos delineou um horizonte na vida daquele jovem inglês, até então sem saber o que fazer da vida. Eric tentou a carreira das artes plásticas e chegou a cursar desenho industrial (!), mas pra nossa sorte e pra dele também, a música falou mais alto.
A carreira musical demanda um grande desprendimento da vida normal. Se ensaiar todo fim de semana as vezes é complicado, deixar um mundo inteiro pra trás é pior ainda. Por isso que as vezes ter uma vida literalmente "fudida" ajuda. Você vive numa região cinzenta da Inglaterra, sem perspectiva nenhuma, o que é se entregar de corpo e alma a música? Praticamente uma obrigação. Dali pra frente, é só não desistir.
2011. Mundo "moderno". Diariamente surgem maneiras e maneiras de entregar sua música aos outros. Mas como "se entregar" a sua música? Arranjar tempo, deixar outras coisas pra trás, deixar namorada, trabalho, família, achar horário pra reunir a banda, e acima de tudo, vontade de seguir em frente... O desprendimento necessário não existe. Não é mais uma Londres cinzenta, é uma cidade com oportunidades de emprego e faculdade para completar. E você não pode simplesmente largar tudo. Desta vez, você tem coisas a perder.
E esse desprendimento some nas nossas inúmeras contas pra pagar, nas pessoas a que devemos explicações, nos laços e raízes que temos aqui, no trabalho, na faculdade... Quando eu paro pra pensar, estou numa faculdade indo devagarzinho, numa banda indo tão devagar quanto e com um rombo imenso na conta bancária. ENORME. Sinto-me como uma daquelas árvores de tronco grosso, cheia de raízes, sem sair do lugar. Um carvalho querendo ser um junco.
No próximo dia 10 de janeiro, fazem sete anos do meu primeiro ensaio. Eu mesmo não tinha noção de que fazia tanto tempo. Naquela época, queria fazer uma mistura de Metallica com AC/DC com Led Zeppelin com Weezer. A receita era tentar ser beberrão, com riffs memoráveis, letras cheias de ocultismo e, claro, nerds. A deadline para fazer algo marcante era os 20 anos, idade que os ídolos da época, o Metallica, gravaram seu primeiro CD.
Depois dos 20 anos completados, a deadline acompanhou meus gostos musicais. Agora tá nos 22 anos, idade que o Elvis Costello começou sua profílica carreira. Se precisar, vai passar para os 24, idade que o Bruce Springsteen começou a galgar o caminho para tornar-se "The Boss". Tudo frescura minha, incluindo aquela eterna promessa de que "se precisar largar a faculdade na hora, eu largo" (mas largo mesmo). O importante é tirar a bunda da cadeira e trabalhar. Mas como Eric Clapton diz no fim de sua auto-biografia:
"Sempre acreditei que a música em si é um agente poderoso o bastante para provocar mudanças e que as vezes palavras ou planos podem ficar no caminho. (..) A música sempre vai achar um caminho até nós, com ou sem negócios, política, religião ou qualquer outra baboseira ligada a ela. A música sobrevive a tudo e (...) está sempre presente. Não precisa de ajuda, e não é obstruída. Ela sempre me encontrou e (...) sempre haverá de encontrar."
Chato como eu. Mas que bom que concordamos.
Sam não justifica mais seus textos. Nos dois sentidos.
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