Mediocridade Musical - Parte II

(Esse post é uma continuação do anterior. A menos que você seja superdotado e tenha entendido "Retorno a Lagoa Azul" sem ter visto "A Lagoa Azul", sugiro que leia o de antes primeiro. =D)

Em 1965, Os Beatles lançaram o álbum Rubber Soul, em que pela primeira vez romperam com os temas tradicionais de amor e garotas e festas e começaram a versar sobre a vida, o universo e tudo mais. Então, do outro lado do oceano, Brian Wilson, principal compositor dos Beach Boys, ficou tão maravilhado com o álbum que decidiu de alguma maneira superá-lo. Assim surgiu, em 1966, Pet Sounds, clássico absoluto dos Beach Boys até hoje. Então, depois de lançar o ótimo Revolver em 1966, em 1967, os Beatles, impressionados e inspirados pelo Pet Sounds, lançaram Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Depois de ouvir um trecho de "A Day In The Life" levado a ele por Paul McCartney, Brian Wilson... surtou. Brigas na gravadora, somadas com desentendimentos na banda e principalmente a superação de sua obra-prima, levaram Brian a largar a liderança da banda, as composições, a se viciar em cocaína e a três anos trancado no seu quarto, dormindo e usando drogas. Medíocre. Diagnosticado com esquizofrenia, Brian finalizou "Smile", que seria o sucessor de "Pet Sounds", somente em 2004, lançando-o como um álbum da sua carreira solo.

Então... uma baqueta quebra.

Uma baqueta quebrar é diferente de uma corda de um guitarrista estourar. Se uma corda estoura, normalmente as mais finas, o guitarrista vai lá e acha uma outra casa parecida, que faça um som similar e não se perde muito. No último show da Pepperland três cordas estouraram e o show foi o máximo. Uma baqueta já é algo diferente. É como se fosse um braço quebrado, que não tá funcionando como devia. Claro, quando acaba a música a gente pega outra e já eras. Mas quando é só uma música, cujo desempenho e execução irá definir o teu dia e que tu não vai ter chance de tocar de novo pra pegar outra baqueta... comofas?

Enfim, malfeito feito, acabamos a música, fomos para o backstage, Samuel xingou tudo e todos, como era o esperado. Depois disso, fomos para o auditório de volta, esperar longas horas até a premiação final.

Então, chega o momento. Horas depois são anunciadas as bandas vencedoras de Bento. Logo após, as de Caxias. Segundo lugar categoria interpréte e segundo lugar categoria própria. Vencedora... Barracuda Project, projeto instrumental que mescla programação com música instrumental. Eles levaram praticamente uma lan house em cima do palco para tocar 7min de uma surf music meio psicodélica. O segundo lugar já tava bom pra mim. O primeiro seria melhor... mas mais distante.

Minutos depois, é anunciado o primeiro lugar. Enquanto eu tava quase morrendo na poltrona do auditório, escuto apenas os tapinhas nas costas dos meus colegas de banda dizendo "calma Cometa, olha a gastrite... hehehe", ou senão, "a gente não vai ganhar... hehehe". E a gente não ganhou. 1º lugar, The Trippers.

Fiquei feliz. Aplaudi de pé e tentei filmar, tremendo. Eles eram a única banda de lá que tocava rock simples, sem frescura (além de nós, claro). Foi realmente merecido, a música deles era realmente boa e tava muito bem ensaiada. Eles erraram a letra, o baterista errou e uma corda de guitarra estourou na hora do solo, mas levaram numa boa. Realmente merecido.

Passada a euforia, baixa a deprê. Até então, a música que eu ajudei a compor, que eu fiz a letra, era considerada por mim boa. Ótima. Até o momento em que ouvi a música nova da Trippers, no MySpace deles, três dias antes. Achei fantástica. Então, pedi pro baixista deles, guitarrista da Pepperland, se era aquela música que eles iam concorrer. Ele disse que sim. Então, fui superado.

A gente podia ter ensaiado mais? Sim, podia. A gente tinha músicas melhores? Sim, tinha. A gente podia ter melhor presença de palco? Sim, podia. Porém, haviam outras questões. A Trippers tem em média 15, 16 anos. Eles tem mais tempo pra ensaiar. Até onde eu sei, eles não trabalham. Eles são mais novos, não tem quem se preocupar com 4 cadeiras, 8 horas de trabalho diárias, não estavam vindo de 24h acordados depois de uma noite tocando... Enfim, uma série de motivos que dizia que sim, foi merecido eles ganharam da gente.

Mas naquele momento, tudo o que me vinha a cabeça era a historinha do Brian Wilson e dos Beatles lá em cima. Eu tinha sido superado, e assim como uma criança mimada que perde o brinquedo (que nem ganhou, por sinal), nada ia tirar da minha cabeça que eu poderia ter sido melhor, mas tinha sido superado por alguém mais novo e com mais capacidade do que eu. Naquele momento, eu era medíocre.

Passei o findi de cara virada pro mundo. Eu não queria que explicassem minha indignação, só que me deixassem ficar indignado mesmo! Felizmente, eu tenho pessoas muito boas ao meu redor que tentaram me deixar melhor. Peço desculpa a todas, provavelmente dei patada em todo mundo.

No domingo, no meio da tarde, meu pai me chama pra assistir aqueles documentários "Classic Albums" sobre a gravação do Plastic Ono Band, primeiro disco de John Lennon pós-Beatles. E quem toca bateria no CD? Ringo Starr, herói da resistência e considerado por muitos medíocre. Talvez, comparado com Lennon, McCartney e Harrison, Ringo fosse. Mas ele dava o toque de simplicidade, a cola que unia os gênios alheios. Bateristas costumam ser pessoas de ação: você nunca vai ouvir eles falar, mas vai ouvir o que eles tocarem. Keith Moon e John Bonham que o digam.

Enfim, lá pelas tantas, falando sobre a obra-prima chamada "God", aquela que encerra o álbum e todas as relações que John tinha com sua vida anterior - de Elvis a Beatles - Ringo fala sobre o que era tocar com os Beatles. "A gente tocava como a gente queria... e era isso."

É tão simples, mas tão simples, que chega a ser tosco de tão óbvio. Essa é a moral da história inteira, tocar porque gosta e porque quer. Fazer do que gosta. Daí me lembrei de todo o estresse dos dias anteriores. Da minha mediocridade. Da minha superação. E de como tudo aquilo ali deveria ser simples, tão simples quanto "fazer o que gosta". Então, Ringo Starr levou Samuel as lágrimas.

(Claro, não só aquilo, mas o Ringo, as pessoas falando bem do Ringo, o concurso, a cabeça cansada e fragilizada, os videozinhos nostálgicos dos Beatles, o John morrendo, enfim, tudo aquilo somado... vocês entenderam...)

Pra variar, comecei a semana com a cara virada pro mundo! Nem o bloco de desenho e os giz de cera resolveram. Xinguei a banda mais umas quinze vezes por N motivos. Desculpa a todos também, mas vocês já me conhecem. Enfim, perdi a fé em tudo, pra variar. Mas, como sempre nessas horas, a solução é dar tempo ao tempo. No final, as coisas vão para outro rumo.

Fim de semana passado começamos a gravação do nosso CD demo. Uma gravação mais decente que a outra vez, que a princípio era pra levar 3h e está chegando na terceira sessão de 3h. Mas que vale a pena. Eu meio que me sinto... um músico. Finalmente. Gravar cada instrumento separado, com fones de ouvido seguindo uma guia, mais ou menos como aparece naqueles documentários que eu citei antes, realmente é uma experiência única. Quem tem a banda no Twitter tá vendo as fotinhos que eu tô postando. E depois eu vou poder falar como o Ozzy quando chegou em casa depois da primeira demo(níaca) do Black Sabbath ter sido gravada: "Olha mãe, minha voz num pedaço de plástico". Tá, eu não canto. Mas vocês entenderam.

As vezes as coisas acontecem tão rápido e a gente exagera tanto elas que não dá tempo nem pra respirar. Eu sou especialista em fazer isso. Dramático até não poder mais. Mas eu me sentiria pior se fizesse pouco caso, se dissesse "ah, perdemos, ano que vem tem de novo". Não. É o que eu quero da minha vida e acho que não tem erro em se estressar por não ganhar. Não quero saber se tem ano que vem, eu quero hoje, AGORA! E vou me estressar até conseguir isso. Como eu disse, tocar uma banda pra frente é o equivalente a ter uma gastrite. Como disse o nosso sábio guitarrista, "isso aí Cometa, tem que morrer de alguma coisa". Medíocre, jamais. Eu não quero muito, talvez só... o mundo.

Pelo menos, a gente não toca Born to be Wild e Smoke On The Water. Não mais.

; )

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4 comentários:

jude disse...

o jedi superando o mestre, como diria meu pai... não acho que tu deveria te sentir mal por isso, mas eu sei que não adianta dizer nada, até pq eu sou exatamente que nem tu. tendência a dramatizar muito as coisas e gostar de curtir a tristeza sozinho. o fato é que tu toca MUITO bem e ponto, não é um concurso que vai mudar isso. e vocês são mais experientes (isso do tempo de ensaiar conta muito); e eles não tem cd ahsudiahd aliás, quero uma cópia XD

Nine Stecanella disse...

"Malfeito feito" é uma referência ao Harry Potter?! Brincadeira.
O que mais vi em todo esse tempo foi essas "injustiças" musicais. Não pela tua banda perder, mas por todos os elementos parecerem conspirar em horas decisivas. Mas como tu bem disse, banda é um estresse atrás do outro.

Nine Stecanella disse...

Hahahaha! Eu sabia! Só porque adoro Harry Potter! Mas enfim, em casa entro no MySpace e tudo mais!

gus disse...

como já comentei no youtube bem legal, rock simples sem frescura e maduro, mas, do jeito que tu falou dos caras de 16 anos, faz parecer que todas bandas em que todos os integrantes tem 15 ou 16 anos têm a banda como principal fonte de ocupação ou seja, são um bando de desocoupados, mas, nem todas são assim, como tu disse, trabalha e faz 4 cadeiras, mesma coisa aqui, não sobra muito tempo pra banda já que estudo e faço "4 cadeiras" mesmo que elas sejam de tarde, e nem se compare trabalhar um dia inteiro e estudar meio turno, mas, deu pra entender, e caso um dia tu escreva uma biografia já tem uma cobaia pra ler os rascunhos