Essa história é contada há muito tempo. Em rodas ao redor de fogueiras em noites frias; em grandes salões de baile renascentistas; em pequenos cúbiculos sujos e ácidos. Onde quer que a humanidade questione-se sobre a justiça e sobre a vida, ela esta lá, na ponta da língua de alguém, pronta para ser ouvida e questionada devidamente.
A ocasião em que a nossa história se desenvolve é a original. Portanto, leiam com atenção. Foi contada por um velho de barba branca a dois meninos, numa noite de lua cheia em tempos perdidos.
Era uma vez um reino. Este reino era belo, forte e grande, como um adolescente que acaba de descobrir os prazeres da vida. Todas as maravilhas que este reino possuía, todos as conquistas que se abrigavam em suas fileiras, eram decorrência dos grandes feitos de um homem apenas. A sua maior característica talvez fosse que, acima de toda a sua coragem, honestidade e bravura, ele era um homem justo.
Este homem justo começou sua carreira como guerreiro. Venceu guerras e mais guerras. Mas era justo na hora de decidir quem deveriam ser os culpados. Quando voltava para casa, era justo na hora de separar os espólios de guerra.
Em pouco tempo, virou governante. Era justo na hora de saber qual obra deveria ser feita e beneficiava primeiro aqueles que tinham menos. Era um homem forte e bonito; mulheres ofereciam-se para ele sempre que possível. Na ânsia se não deixar nenhuma delas insatisfeita por ele não levá-las para cama, levava todas. Enfim... era um homem bem justo.
Certo dia, porém, este homem justo olhou pela janela mais alta da torre mais alta do seu castelo e viu que o seu reino estava perfeito. Estava crescendo para todos os lados. Todos tinham alimento na sua mesa e segurança nas ruas. Todos viviam uma vida bela e justa, como ele sempre lutou para que todos tivessem.
Era hora de partir. Buscar novos horizontes.
Assegurou-se de que todos os homens que cuidariam do seu reino enquanto estava fora eram tão justos quanto ele. Não precisou preocupar-se muito com isso; havia escolhido com justiça todos eles. Quando questionado sobre o porquê da sua viagem, respondeu que não era justo um reino com tantas conquistas, tanto conhecimento e tanta beleza não ser conhecido nos outros continentes além-mar. Por isso, reuniria algumas das mais belas obras produzidas ali, algumas das riquezas mais bonitas, imagens do reino, descobertas científicas, especiarias, pratos especiais, e carregaria todos na melhor embarcação do reino e partiria, pronto para espalhar suas conquistas.
"Mas isto é loucura!" disse um dos seus súditos mais leais. "Leve algum de nós com você pelo menos!". O homem justo então respondeu: "Não. Se vocês consideram isto loucura, não devo levar nenhum de vocês comigo. Não seria justo. Irei sozinho." E sozinho ele partiu.
O homem justo então foi embora, deixando o seu reino para trás. Houve um dia inteiro de comemorações, para lhe desejar boa sorte e pedir a benção dos deuses. Ele não concordou inteiramente com as festas; não era justo gastar tanta comida e bebida na despedida de alguém. Que gastassem quando ele voltasse. Mas ao ver a alegria de todos festejando, viu que era justo que eles tivessem pelo que comemorar. Ao escurecer do dia, foi embora.
Depois de uma semana de viagem, o dia amanheceu com o sol mais brilhante que o homem justo havia visto em sua vida. Era um dia especial. Ele definiu o curso da navegação em direção ao astro-rei e vestiu a sua armadura de batalha mais bonita, dourada, com uma capa forrada de adereços que homenageavam as belezas da sua terra natal. Pegou a sua espada com o punho cravejado de pedras preciosas e a pôs na cintura. Então, seguiu até a ponta do barco e pôs-se a observar o sol.
E lá estava ele, dourado e forte, imponente e tranquilo, exatamente como o homem que o observava. O homem justo então olhou para o sol e disse: "Sol, que me iluminou e me esquentou nos dias felizes da minha vida. Sol, que senti falta nos dias tristes e frios da minha existência. Sol, que presencia agora a verdadeira felicidade do homem. Obrigado pela companhia." Ele então sacou a espada pesada da cintura e apontou em direção ao céu.
Mal sabia ele que eram essas as suas últimas palavras.
Não se sabe o que aconteceu. Se o homem justo, ao sacar a sua espada pesada da armadura pesada, se desequilibrou. Se o vento, naquele momento, decidiu avançar uma milha da sua direção, e mexeu no curso do barco. Se o barco bateu em algum rochedo ou algum golfinho no fundo do mar, e então tremeu. Se os deuses se enfureceram por algum motivo desconhecido. O fato é que, depois de sacar a sua espada e apontar para o firmamento, o homem justo, em toda a sua glória e conquista, se desequilibrou e caiu no mar.
Sozinho. No meio do oceano. Sem ninguém para ajudá-lo.
O homem que viveu justo a vida inteira, teve uma morte indigna a sua pessoa. Sua armadura, pesada demais, o impediu de nadar de volta a superfície. Sua localização, no meio do oceano, o impediria de achar alguma ilha ou outra embarcação. Era o fim. E ele sabia disso, nos poucos segundos que teve antes de tombar insconciente na escuridão para o outro mundo.
Os dois jovens então olharam para o senhor de barba branca e ficaram esperando para ver quem seria o primeiro a quebrar o silêncio. Um deles então, chamado Esopo, resolveu falar. Ele pediu.
- Mas senhor! Qual é a moral desta história então? Ele viveu a vida da forma mais justa possível só para a vida passar-lhe a perna e deixá-lo no fundo do mar?
- Não, meu filho - disse o velho. E virou se para o outro - Você, acha o mesmo que o seu colega?
- Não - pronunciou ele rapidamente. Seu nome era La Fontaine - Eu acho que a lição da história é que, não importa quão bem você viva a sua vida... isso não lhe garante um final feliz.
O velho então parou, observou os céus, contou cinco estrelas cintilantes acima deles e alisou a barba. Depois falou.
- Vejo que vocês estão enxergando com olhos pequenos. Limpem as suas mentes e escutem o que direi. Depois guardem no coração e levem com vocês. Não podemos exigir tudo da vida. Temos de fazer por ela, fazer merecer. Como o nosso homem justo fez. Mas não podemos esperar que isso nos garanta a eternidade feliz, ou a felicidade eterna. A vida não nos trará todos os nossos dias felizes e justos, mesmo que sejamos pessoas assim.
- Mas meu senhor! - disse Esopo - ele foi feliz e justo a vida inteira e morreu como um ninguém! Por quê? A vida não é justa?
- É simples - disse o velho calmamente - Há uma razão para a vida não ser justa com você todos os dias do ano, todos os anos da sua existência.
- E qual é? - questionaram os dois juntos.
- Por que isso seria uma injustiça com todos os outros.
Os três silenciaram. Uma coruja piou. Uma estrela cadente chegou ao seu destino. Uma ampulheta completou a sua volta. E a história escorreu para o vazio do eco da eternidade.
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