Caixinha de Histórias

Como a maioria deve saber, ou quem não sabe vai descobrir, nos últimos dois anos eu me mudei duas vezes. Não, eu não virei cigano; circunstâncias da vida, mas que finalmente chegaram ao fim. Estou de volta de onde saí já. E está melhor do que nunca.

Pra quem já se mudou alguma vez na vida, sabe como é: encaixota tudo, identifica o que que é (há um rabisco em cima da minha TV até hoje escrito "TV" - não me pergunte...) e vê o que é importante para ir junto, o que é importante para ficar guardado.

O fato é que na sala da minha antiga casa, aquela de dois anos atrás, havia uma estante que ao longo dos anos foi preenchido com todo tipo de literatura de banca possível, principalmente gibis. Não ouso dizer que foi ali que sedimentei a minha leitura pro resto da vida; gibis também são cultura. Porém, mesmo com tamanho valor sentimental, essa literatura também foi encaixotada no vaivem da minha vida e até pouco tempo atrás encontrava-se neste estado claustrofóbico.

Até ontem, para ser mais exato. Agora, com bastante espaço livre (belo eufemismo - quase não há lugar para mim no meu quarto de tanto gibi) decidimos pegá-la de volta na casa de uma conhecia onde estava guardada. Depois do esforço épico de levar uma caixa morro e escada acima (minha mão sente o "peso da leitura" até agora) tivemos o prazer de abrir a caixa e ver o que tinha lá dentro.

Confesso que a alegria foi minha. Foi até engraçado de ver: a caixa aberta no meio da sala, com cada um separando o que era seu. Minha mãe com alguns livros de didática, meu irmão com mais alguns livros de literatura e eu, com a minha alegre e jovial pilha gigantesca de quadrinhos. Ô felicidade!!!

Como diria meu irmão, virei criança. E é verdade. O número de memórias que surgiram naquele momento... algo incrível. Foi como abrir uma caixa que dissesse "agora vamos ver como você era há anos atrás". Uma olhadela para o passado que, se não encheu os olhos de lágrima, pelo menos os encheu de pó. Mas nada que não tivesse valido a pena.

O que me leva a pensar: seria interessante em algum momento da vida, no colégio talvez, no início da faculdade, ou em qualquer momento da vida, nos prepararmos para nos desfazer de algo, mas só por alguns anos, para reavê-los depois. Só para sentir isso que eu senti: a sensação de que lá no fundinho, ainda tem um "eu" de anos atrás escondido.

Em tempos de falta de tempo pra tudo, de falta de tempo para aproveitar o bom da vida, um dia de sol, uma tarde no parque, é bom saber que dá pra voltar um pouco atrás sem precisar ser somente saudosista. Dar a si mesmo um tempo para ler as revistas que você lia há um tempo atrás. De ser como se era há um tempo atrás. Afinal, se de tempos pra cá a humanidade vem "piorando", então antigamente a coisa tava melhor do que agora. Olhemos para trás.

Tem mais uma caixa. Se der, pego ela de volta hoje. =D

(Post feito ao som de Led Zeppelin, Velhas Virgens, Beatles e Flogging Molly. Ô delícia!)

Um comentário:

Nine Stecanella disse...

Sam passei por isso a pouco tempo, com minhas caixas de Barbie. E também minhas revistas. Nada melhor.

Beijo!