40 anos de velhos amigos

Um ano é caracterizado pela translação, movimento completo da Terra ao redor do sol que dura 365 dias. Mas como se contam os anos em um planeta onde temos dois sóis? E como se comemoram os aniversários em uma galáxia muito, muito distante?

Essa nunca foi e nunca será uma das minhas principais dúvidas em relação a Star Wars. Primeiro, porque ela deve ter explicação (tudo em Star Wars tem explicação) e segundo, porque não importa. O que importa é que o tempo passa, e Star Wars permanece.

Luke chateado por não poder comemorar dois aniversários por ano.

Minha relação de amor com a saga começou por volta de 2002, quando Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones estreou no cinema. Eu lembro de ter ouvido falar do Episódio I em 1999, quando foi lançado, mas ainda não tinha sido fisgado. Mais velho, na época do lançamento do segundo episódio da série, me vi em meio ao furacão. Eu tinha 14 anos, idade perfeita para ser vítima da saga.

O SBT resolveu fazer uma maratona dos filmes, toda quinta-feira à noite, um por semana. E foi assim que assisti Star Wars pela primeira vez: dublado. Foi ali que ouvi pela primeira vez Luke Skywalker sendo chamado de “Vermelho 5”, e foi ali que surgiu o meu e-mail e uma das perguntas que mais respondo até hoje. Não, não é “Vermelho 5” por causa do cabelo. É por causa de Star Wars.

Foram algumas sextas-feiras de muito sono na aula, mas tudo valeu a pena. Depois veio o Episódio II no cinema e a enxurrada de merchandising que vem com todo filme, e quando eu vi eu já tinha livro, boneco, gibi, e um universo inteiro pra conhecer. Em pouco tempo comecei a mestrar um RPG improvisado de Star Wars para os amigos, e logo tudo passou a fazer sentido: aquilo era perfeito para nós. Era como se tivéssemos feito novos amigos de uma hora pra outra.

Han não pensaria o mesmo de nós, provavelmente.

O legal de analisar uma propriedade intelectual tão duradoura como Star Wars é tentar entender o que faz ela durar tanto tempo. Desde que me interessei pela série dei de cara com as relações entre ela e a jornada do herói, sempre com menção honrosa ao livro O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell. Star Wars não é nada mais do que a história do escolhido que irá trazer equilíbrio e luz a um mundo mergulhado em trevas, mas dessa vez com naves espaciais, aliens e sabres de luz. E tudo melhora quando você acrescenta esse trio de ingredientes (só ficaram faltando os dragões).

Mas mais do que isso, olhando para trás hoje, Star Wars na adolescência era cada um de nós, aprendendo sobre nós mesmos enquanto éramos confrontados pelo mundo ao redor. Éramos todos um bando de Luke Skywalkers querendo ser Han Solos e procurando suas Leias por aí. Por mais influenciada que fosse por histórias milenares, Star Wars tinha um tempero especial. Tempero que já dura 40 anos.

Você está ficando velho, George.

Hoje, 15 anos depois de conhecer os filmes, a influência que a história tem em mim mudou. Eu já não me vejo mais nos conflitos dos personagens (estou mais pra Obi-Wan do que pra qualquer um dos outros – e Obi-Wan acabou se tornando o meu personagem favorito), mas me vejo nas pessoas que cresceram com Star Wars e acabaram procurando ali inspiração para fazer o que amam.

Cada entrevista com os novos atores, roteiristas e diretores dos novos filmes é sempre recheada com frases como “fazer isso era meu sonho quando criança e agora é realidade” ou “eu imaginava o que teria acontecido depois da história dos filmes – e agora eu estou produzindo elas”. Star Wars era inspiração para elas quererem fazer a sua arte, e foi fazendo sua arte que elas foram convidadas a fazer Star Wars. É um ciclo. E você vai dizer que a Força não existe?

Luke não acredita que você não acredita.

E pensar que tudo isso aconteceu quase por acidente. George Lucas tentou adquirir os direitos de Flash Gordon para fazer um filme baseado nas histórias em quadrinhos do herói de ficção científica dos anos 50. Não conseguiu. Com base no filme que ele não conseguiu produzir e inspirado pelas influências dos novos filmes japoneses que chegavam aos Estados Unidos, ele fez a sua história.

A história do primeiro filme, que hoje comemora 40 anos, foi pensada como a parte 4 de uma série de 9 partes que Lucas nem sequer sonhava conseguir fazer. Talvez inspirado pelo seu fracasso em não conseguir os direitos de Flash Gordon, Lucas trabalhou com a expectativa baixa: lançou o filme apenas como Star Wars – Uma Nova Esperança. Assim que viu o sucesso do filme, viu a nova esperança se tornar realidade e logo acrescentou o subtítulo Episódio IV, ensinando numerais romanos para uma geração e complicando a cabeça de um monte de gente que não entende até hoje como uma história pode começar do meio.

Lucas, como todos nós, começou a história como Luke Skywalker: um jovem curioso, indignado com a sua situação e tentando fazer o melhor com as suas habilidades e com o que o mundo lhe dava. Então, quando viu que não seria fácil convencer o mundo que já existia a ser como o que ele queria, Lucas criou um mundo para si mesmo . Hoje, ele empresta esse mundo para pessoas tão apaixonadas como ele poderem brincar e contarem as suas histórias.

(Não que ele goste, claro. A gente sabe que ele preferia que fosse ele o responsável por estar contando essas histórias, mas você sabe que nós somos ciumentos dos nossos próprios brinquedos.)

Hoje, pensar em Star Wars é como encarar que aqueles amigos que entraram para a turma na nossa adolescência já estão comemorando 40 anos com todos os seus sonhos alcançados e servindo de modelo para mim. Quando eu preciso me inspirar para fazer o que eu amo - escrever, criar, produzir - e quando eu preciso de motivação, eu lembro da história deles.

Star Wars me faz querer ser melhor no que eu faço de especial e deixar algo que marque a vida das pessoas. Acho que não existe melhor legado para sua arte do que você fazer as pessoas se superarem. E eu pretendo alcançar isso com a minha arte um dia.

George Lucas não pensou como se comemora aniversário em um planeta de dois sóis porque talvez ele imaginou que nunca teria que se preocupar com isso – e depois do primeiro filme, nunca mais teve tempo pra se preocupar com isso. Mas não importa. No planeta azul de apenas um sol nós comemoramos há 40 anos do mesmo jeito: desejando sempre que a Força esteja com você.


Sam pretende comemorar 40 anos com 8 filmes sobre sua vida também.

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